Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

MEU AVÔ BENTO

8 comentários

Na mão direita, faltava o anular. O dedo fora moído junto com a carne nos tempos em que tinha açougue. Entre o indicador e o médio, o Beverly sempre queimando. A cinza aumentando, tomando quase o cigarro inteiro. Só então, com muito cuidado, ele a depositava no cinzeiro. Beverly sem filtro. Pulmão preto inalando fumaça desde menino, menino fumando escondido do pai no cafezal.
Não tinha coisa mais gostosa do que passear no Chevrolet do meu avô, pneu faixa branca, só nós dois, eu no banco da frente como gente grande e ele me fazendo todas as vontades. No quarto, um cofre bem grande com o nome dele escrito na porta. Um cofre que o acompanhou a vida toda. Em cima do cofre, uma lamparina acesa para Nossa Senhora Aparecida, a santa de sua devoção.
Quantas vezes não fui com ele à Aparecida agradecer de perto os milagres da santa. Na saída, a família inteira na porta da igreja fazendo pose para a fotografia. Tenho as fotos até hoje, desbotadas, família quase desaparecida. Quem pensou que tamanha fé fosse desbotar desse jeito?
Os filhos iam ver o pai todas as noites. Eram muitos, mais os netos, as noras, os genros, a prosa ficava animada. Quando o calor da discussão aumentava além da conta, bastava um olhar do meu avô para que todos pusessem água na fervura e guardassem a ira de novo na gaveta.
Tinha a tia que tocava piano, a que fazia o café, a que passou a vida fazendo enxoval sem nunca encontrar o noivo, a que rezava no quarto pelos pecados de todos nós, e eu, no meio de tudo isso, querendo que o tempo passasse depressa pra sentar no sofá, usar colar de pérola, salto alto, dar risada bem alto e fumar.
Meu avô era homem de pouquíssimas palavras. De vez em quando, dava um sorriso ou uma risadinha abafada. Acenava a cabeça quando concordava e calava-se nas discordâncias. No fim da vida, quando já não levantava da cama, eu soube que ele carregava no peito uma grande tristeza: nunca tinha feito a primeira comunhão. Não fez quando menino, cresceu, ficou com vergonha, deixou pra lá. Passou a vida com vontade de compartilhar o pão sem poder, embora nunca tenha faltado à missa. Na hora da comunhão, minha avó ia lá pra frente enquanto ele ficava no banco, esperando. A vida inteira passando por pecador.
A coisa era fácil de resolver. Chamei um padre meu amigo, contei-lhe a história e ele foi com muito gosto ouvir a primeira confissão do avô moribundo.
Ficamos na sala enquanto os dois estavam no quarto, de portas fechadas. Logo ele veio nos chamar:
— Venham todos comemorar, seu Bento acaba de fazer a primeira comunhão!
Quando entramos, meu avô cobria o rosto com as mãos para que não o víssemos chorando.

(post de 2008 publicado na antologia Blablablog, org. Nelson de Oliveira)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

8 thoughts on “MEU AVÔ BENTO

  1. Gostou mto e confirmou todos os detalhes do meu avô Bento!

    Como dizia a minha mãe, Odila, “filha você é um COLOSSO!”

    Beijos

    do seu pai

  2. pena que eu não o conheci …

  3. Querida,

    que delicia ler sobre o seu – nosso – avô. Ele faleceu quando eu era muito pequena, 1 aninho.. e não tenho minhas memórias de infância compartilhadas com ele. Gostoso saboreá-las pelo seu intermédio. Obrigada! beijos

  4. Uma das visitas que mais emocionou os meus pais foi à visita do vó Bento e Aldila em Londrina.
    Para o tio Bento sair de São Paulo e vir à Londrina é sinal que ele nós quer muito bem, assim dizia meu pai Olavo.
    Abraços.

  5. Linda crônica Ivana!

    Passei por uma experiência parecida com minha avó. Ela só comungou com 70 anos, por uma série de razões. Chorou feito bebê nesta missa!!! Muitas saudades dela.

    Grande beijo e ótima semana pra você.

  6. Que delicia lembrar desse tempo.

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