Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

O CORAÇÃO DA PEDRA

2 comentários

Tudo que me separa do fundo é um limite fluido, uma suave película que não faria a menor resistência, caso eu quisesse mergulhar de vez. Ficar no fundo do mar para sempre.

Daqui avisto a baía, os prédios, os automóveis, a nuvem de fumaça que sufoca a cidade. Ao oeste vejo as montanhas, as ilhas, os pássaros, o ninho dos pássaros. Os pássaros são do mundo de cima, os peixes são do mundo de baixo. Só eu, neste limite, não sei a que mundo pertenço.

O pensamento é uma faculdade totalmente inútil. Fosse ele substituído por instintos mais aguçados e na certa acabaria encontrando o caminho da felicidade. Se eu ganhasse na loteria, veria o entardecer sem vontade de chorar e nunca mais teria preocupações. O coração das pedras não se agita com vãs preocupações. O meu, ao contrário, em nada se assemelha ao delas. É de outra natureza.

Quisera ter um canto só meu, um minúsculo canto longe daqui, longe deste barco, longe deste casamento naufragado há tanto tempo. Mas falta-me dinheiro suficiente para cuidar da vida. Se a sorte batesse a minha porta, eu mandaria minha mulher à merda, afundaria sua cabeça na água até que suas grossas perninhas parassem de estrebuchar e depois a atiraria aos tubarões que fariam bom proveito desta carne.

Fosse eu uma pedra e estaria quieto no meu sono de pedra, sabendo que nada de novo acontecerá antes do fim do mundo. Pedra não tem querer. Mas, pobre de mim, vivo a lamentar minhas perdas: perdi a juventude, perdi Tânia que cansou de esperar e estou perdendo o fígado de tanto beber.

Tanto que Tânia pediu:

– Deixe sua mulher, separe-se dela.

– Com que dinheiro? – eu lhe perguntava – você quer que eu vá para debaixo da ponte?

– Exagero seu – ela dizia – vocês tem o suficiente para a separação.

– Mas depois da separação tem a pensão do menino, o advogado, o litígio, o natal…

Se Deus for justo, essa será a milhar sorteada. O bilhete que trago no bolso me livrará deste inferno. Amanhã embarco para Nova Iorque ao encontro de Tânia. Minha mulher que se vire com o menino

***

A loteria livrou-me de um inferno e atirou-me em outro. No dia-a-dia Tânia revelou-se uma mulher insuportável: cheia de manias, ciumentíssima e o que é pior, torrou todo dinheiro que levei. Por sorte consegui salvar algum para passagem de volta.

Daqui de cima avisto a baía, os prédios, os automóveis, a nuvem de fumaça que sufoca a cidade. Assim que aterrizarmos compro outro bilhete. Se Deus for justo, não vai me negar uma segunda chance.

(conto do livro Histórias da mulher do fim do século)

2 thoughts on “O CORAÇÃO DA PEDRA

  1. Amo ler seus textos! Eles penetram minha alma!

  2. que delicia de texto, como sempre. bj,

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