Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

A GRANDE HONRA DA DESONRA DE J. M. COETZEE

10 comentários

Coetzee publicou Desonra em 99 mas só agora eu tive a felicidade de ler. No Brasil, esta publicação (bem como de outros prêmios Nobel) faz parte da comemoração dos 25 anos da Cia. das Letras e a edição (capa dura e coisa e tal) é um primor.

Nem preciso falar que eu pirei com o livro. MARAVILHOSÉSIMO. É da época em que ele era menos experimental e escrevia historinhas bonitinhas (por bonitinhas eu quero dizer: com começo, meio e fim) sem insertos ensaísticos que virou sua marca. Não que eu tenho algo contra os tais insertos, mas é preciso estar familiarizado com o autor para degustá-los com prazer.

Eu mesma já deixei dois livros pela metade jurando nunca mais querer vê-los na frente: Diário de um ano ruim e Um homem lento, sendo que hoje, depois de Desonra, eu peguei o Diário… e sei que vou devorá-lo extasiada.

Lição número um: se você não curtiu algum livro do Coetzee saiba que o problema está em você, nunca nele. Saia, vá se distrair, aprenda mais coisas, leia mais livros, viva e volte a ele tempos depois. Repita este processo quantas vezes forem necessárias porque um dia a porta se abre e a iluminação acontece. Aí não tem nome o que você vai sentir.

Desonra conta a história de um professor cinquentão, garanhão, que se envolve com uma aluna e é processado por isso. Ele sai da cidade e vai ao encontro da filha que mora numa fazenda com quem ele tem enormes dificuldades de se relacionar. E por aí a história anda com muitos animais e sacrifícios de animais pelo meio, com a situação pós-apartheid da África do Sul, etc etc etc Enfim, um livro lindo mas desencantado como tudo de Coetzee. Desencantado mas de um humanismo comovente.

Ele honra e ama desesperadamente esse homem/mulher em quem ele não acredita nem aposta um vintém.

Diário de um ano ruim são anotações dele (?) mescladas com ficção.

Ao falar sobre a vida de escritor, ele diz coisas como:

“mas eu duvido que consiga pô-la [uma história que ele está imaginando] no papel. Ultimamente, esboçar histórias parece ter se transformado num substitutivo de escrever histórias”

Num outro trecho, ele coloca uma citação de G. G. Marques sobre inspiração:

“eu não concebo a inspiração como um estado de graça nem como um sopro divino mas sim como uma reconciliação com o tema às custas de tenacidade e domínio… o autor atiça o tema e o tema atiça o autor… todos os obstáculos caem por terra, todos os conflitos desaparecem, nos acontecem coisas que nunca sonhamos e então não existe nada na vida melhor do que escrever”.

Olha o que ele escreve sobre J. S. Bach:

“A melhor prova que temos de que a vida é boa e, portanto, de que talvez possa existir afinal um Deus, que tem nosso bem-estar no coração, é que para cada um de nós, no dia em que nascemos, vem a música de Joahann Sebastian Bach. Ela vem como um presente, não ouvida, não merecida, grátis”.

É de morrer de lindo, não é?

A última citação é sobre os dois grandes romancistas russos:

“E fica-se grato à Rússia também, à Mãe Rússia, por colocar diante de nós com uma certeza tão inquestionável o padrão ao qual todo romancista sério deve aspirar, mesmo sem a menor chance de chegar lá: o padrão do mestre Tolstói de um lado e o do mestre Dostoiévski do outro. Com o exemplo deles somos artistas melhores; e com melhores não quero dizer mais hábeis, mas eticamente melhores. Eles aniquilam nossas pretensões mais impuras; eles esclarecem nossa visão, eles fortalecem nosso braço”.

Chega. Vão ler Coetzee. É só o que posso lhes desejar. Mas comecem do começo: Desonra, Infância, Verão, Juventude e por aí vai.

10 thoughts on “A GRANDE HONRA DA DESONRA DE J. M. COETZEE

  1. Vou correndo ler! estava escolhendo um livro pra comprar e vou seguir conselho da Mestra Ivana! Obrigada

  2. ivana, junto com “desonra”, vc tem que ler “vida e época de michael k”, é sensacional! abs, Surya

  3. O estilo de Coetzee me arrebata. Desonra é sensacional. Homem Lento também. São duas obras primorosas. Abraços.

  4. Caramba,

    Agora fiquei preocupado. Não vi nada de extraordinário neste livro, embora seja uma boa leitura, é verdade.

    Fiquei realmente muito preocupado. Qual será o meu problema? Às vezes tenho a sensação de que preciso nascer de novo. Só assim para se resolver algumas coisas.

  5. Vou reler Desonra!

    Bel Gomes

  6. Se começa a ler Coetzze pelos livros mais fáceis -infância,Juventude,Verão,o comovente Vida e época de Michael K.

    O seu livro de ensaios Mecanismo internos é p/ os que gostam da grande literatura atual. No coração do pais ,outro livro ,é pura fúria de emoção,paixão, tudo.

    Raphael está coberto de razão,a questão do perdão,da compreensão , para se poder continuar a viver.
    Desonra é um livro poderoso…Coetzee tem o que dizer.

  7. Ivana, esse é um dos melhores livros que já li na vida! Com um final de chorar. Lembro que quando terminei o livro, aplaudi-o, e depois fiquei em silêncio degustando como um vinho. Todos devem ler Coetzee mesmo.

    Abraços

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s