Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

A SONGAMONGA

5 comentários

Alguém estava entrando na casa. O cachorro latiu confirmando a suspeita. A mulher dormia profundamente ao seu lado, o filho no quarto em frente. Alguém subia em direção ao quarto. Olhos esbugalhados de medo, respiração presa, corpo teso de pavor. Quem seria? Fosse quem fosse, já estava no topo da escada. Era preciso apanhar o revólver na gaveta do criado-mudo. Fuçou tateando cada canto e nada. Cadê? No outro criado-mudo talvez. Essa mania da mulher de dormir cada noite de um lado. Sem respirar, esticou o braço. A tontona roncava feito uma porca. “O revólver” – suspirou aliviado ao encontrar a arma embrulhada num pedaço de flanela. Era assim que seu pai guardava a arma que lhe deu um pouco antes de morrer. Será que ele saiba atirar? Treinou umas vezes mas nunca mais. Carregado ele está.
A mulher, que há muito perdera o costume de abraços no meio da noite, acordou entre susto e gozo. Era um sonho ou o marido que não comparecia há meses estava mesmo em cima dela? Mas quando tentou corresponder ao abraço, veio a bronca de sempre:
– Vê se te manca, songamonga, não vê que tem gente aí?
– Gente onde? O que você esta falando homem de Deus?
– Aí, a dez metros da sua fuça. Tem um ladrão subindo a escada.
– E precisa falar desse jeito? Songamonga é a vaca da tua mãe.
– E isso é hora de xingar minha mãe?
O objeto metálico na sua mão cuspiu duas balas no peito do mulato que já estava no terceiro degrau. O homenzarrão caiu pra trás e se encolheu feito feto ao pé da escada. Língua ficando roxa, sangue vazando pelo bolso esquerdo da camisa. O marido parecia uma estátua lá no alto. Poderia ser inaugurado: homem de pijama após o crime. Não movia um músculo.
A mulher continuava no quarto com a cara pasmada de sempre. A cabeleira desgrenhada dava-lhe um ar de medusa. Medusa da Aclimação. Ouviu o tiro e agora ouvia os gemidos. Pé ante pé saiu do quarto, passou pelo marido e desceu a escada chegando bem perto do quase defunto. Era este o ladrão? Segurando a cabeça do rapaz entre as mãos, pode ouvir suas ultimas palavras:
– Você disse que hoje ele não estava em casa, sua songamonga.
Calaram-se os três, o mulato para sempre.

(conto publicado no Histórias da Mulher do Fim do Século)

5 thoughts on “A SONGAMONGA

  1. Dizem que Deus protege às crianças, loucos e bêbados…e…as songasmongas.

    Genial, adorei! Bom humor para começar a minha segunda feira.

    Solange.

  2. Nossa, demais. Como engana o leitor e depois nos estapeia. Ótimo!

  3. Ah que medo…mas é songamonga mesmo hem?

  4. Alguém disse (e deve estar escrito em algum lugar) que a maior qualidade de um escritor é não aparecer em seus textos. Nunca vejo você nos seus textos.

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