Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

O MEU 11 DE SETEMBRO

14 comentários

Ao contrário do mundo, os últimos dez anos foram os melhores da minha vida. Nunca tive dez anos consecutivos de uma safra tão boa como estes do século XXI. Minha vida até então era uma montanha russa: aos momentos bons seguiam-se outros péssimos ou tumultuadíssimos. No entanto, de dez anos pra cá (graças à análise que já vinha de longe), se as coisas nem sempre foram maravilhosas, péssimas, elas nunca mais seriam.
Em julho de 2001 eu conheci Marcelino Freire e este foi o marco zero da vida que se seguiu: a da Ivana escritora. Publiquei o “Falo de Mulher” meses depois, participei da antologia “Geração 90: os transgressores”, da revista “SP” e daí pra frente tudo que aconteceu é de domínio público.
Conheci Marcelino e terminei um relacionamento péssimo que se arrastava há anos no MESMO dia: 29 de julho de 2001. Dessas coisas tem a vida…
Mas eu queria falar do 11 de setembro daquele ano. O tal.
Eu andava animadíssima com a turma de escritores que acabara de conhecer, com quem me reunia todos os sábados no Franz café da Fradique para altos papos sobre literatura e a vida em geral. Estávamos todos nos conhecendo: Marcelino, Joca, Nelson de Oliveira, Ronaldo Bressane, Marçal Aquino, Marcelo Mirisola, Bruno Zeni e outros tantos que por lá apareciam. Marcelino tinha acabado de lançar “Angu de Sangue”. Poucos ali tinham livros publicados.
Eu me dividia entre a prefeitura, a literatura e o doutorado em sociologia que eu fazia na USP. O projeto da minha tese era sobre Pedro Almodovar. Eu já havia feito todos os créditos, faltava o exame de qualificação, marcado para as 14 horas do dia 11 de setembro.
Naquela 3a. feira eu acordei às 9 e pouco, com argumentação toda na ponta da língua, tomei café da manhã e, ainda de pijama, liguei a tevê pra relaxar e pensar em outra coisa. O primeiro avião tinha acabado de bater na torre. Ainda se achava que havia sido um acidente qualquer. Nem se falava em atentado. Passei a manhã em frente à televisão dando e recebendo telefonemas para amigos e parentes. Às 13h, vesti uma roupa, comi qualquer coisa e corri pra USP. O clima lá estava super tenso. Nas salas e corredores só se falava do atentado. Meu examinador e os dois professores da banca já estavam na sala quando cheguei. Foi difícil interromper a conversa sobre o terrível espetáculo que tínhamos visto pelo manhã e nos concentrarmos na obra de dom Pedrito, o cineasta manchego que nos reunia ali.
Nada podia ser pior do que aconteceu naquela sala do prédio das Ciências Sociais, na tarde de 11 de setembro de 2001. A minha tragédia só encontrou parâmetro na de Nova Iorque.
Os dois examinadores, querendo mostrar-se superior ao “pai” (o meu orientador)me pegaram pra Cristo, ou melhor, pra Bin Laden e caíram de pau no meu projeto não deixando pedra sobre pedra. Eu e meu orientador acabamos soterrados sob os escombros do que se pretendia um estudo da obra de Pedro Almodovar.
Ou eu começava tudo de novo, do marco zero, ou seria reprovada. Na briga entre os doutores, acabou sobrando pro elo mais fraco, claro. No caso, eu. Veredito este que foi dado depois de me deixarem DUAS HORAS esperando na sala ao lado. Resultado, o exame começou às 14horas e terminou às 21h30.
Cheguei em casa arrasada, morta, triste, desesperada, liguei a televisão e vi que a desgraça estava só começando.
Nas semanas que se seguiram, eu e Nova Iorque tentávamos buscar forças que não tínhamos para nos reerguermos. Uma professora muito querida, Maria Arminda Nascimento Arruda, acreditando que minha tese era altamente defensável, se ofereceu para me orientar dali pra frente. Eu até tentei. Fiz novo exame de qualificação que também não agradou os examinadores. Eles me dariam uma terceira chance. Mas antes disso eu joguei a toalha. Mandei a USP e o doutorado à merda e segui adiante. Afinal, a literatura me esperava de braços abertos e seu convite era irresistível.
Voltei uma vez ou duas à USP depois disso mas confesso que me sinto mal só de passar em frente ao malfadado local.
Quando dei tudo por encerrado, deletei o projeto do computador e no seu lugar ergui um conto sobre a tragédia de 11 de setembro, que deixo aqui pra terminar esse depoimento.

A VERDADEIRA TRAGÉDIA

Jamais esquecerei aquele 11 de setembro. Quando acordei, estranhei que Hugo ainda estivesse em casa. Normalmente, ele já teria tomado banho, feito o café e saído para o trabalho. Mas não, ainda estava lá, sentado na sala, de camisa esporte.
– Precisamos conversar – ele disse.
– Fala – respondi com a boca seca.
– Eu estou indo embora.
Sem querer ouvir o resto, levantei-me e fui à cozinha. Debrucei-me sobre a pia com o corpo tremendo. Pensei em pegar uma faca.
– A chave está na mesinha – ele disse lá da sala.
Foi a última vez que ouvi sua voz. Soube depois que, nesse mesmo dia, aconteceu um acidente terrível em Tóquio ou Nova Iorque. Um avião egípcio bateu numa torre e derrubou uma antena de televisão. Não sei direito como foi a tragédia, mas duvido que tenha sido pior do que a minha.

(conto publicado no meu livro Ao homem que não me quis)

14 thoughts on “O MEU 11 DE SETEMBRO

  1. Ahh Ivana, todo mundo teve (ou tem) um 11 de setembro na vida.Bj Mônica Sallum

  2. Cruzes, Ivana, que coisa mais malfadada – Almodovar faria um filme. Quem saiu perdendo foi a USP – o que muito me diverte.🙂 Também tenho um conto sobre 11 de setembro. Gostaria de ler? Posso mandar e, se vc não gostar, faça como sua tese, logo no primeiro parágrafo. Um beijo.

  3. Ivana,
    Texto lindo! Dificílimo esse momento de libertação dos ranhetas que amarram nossa capacidade criativa, nossa invenção, em nome das ciências, deus meus, das ciências… Seu texto captou perfeitamente o processo e o momento, e a crônica, à la Almodóvar, é ótima! Muitos parabéns pela nova vida iniciada em 2001, ano cabalístico, milênio novo, escritora nova, liberta dos dedos apontados pela academia…
    Vida longa!
    Inté, Silvio

  4. Ivana,
    Passo vez ou outra por aqui e sempre me delicio com sua
    escrita adorável e encantadora!
    Fiquei pasmo com seu 11 de setembro de 2001, não o do conto q é triste mas alentador. Refiro-me ao seu drama da defesa do seu doutorado. Já acompanhei algumas defesas e sempre saio com essa impressão: a banca quer e deseja mesmo é ser mais importante (deseja os holofotes) que o aluno que se debruçou sobre o assunto durante anos de sua vida. Não q não possa ser questionado, mas nesse ponto (a defesa) todos os arqumentos contrários já tinham que ter sido apresentados.
    Minha solidariedade e apoio à sua decisão de dar às costas à academia. A USP e os cadetráticos vivem numa redoma, numa ilha. E o pior, redoma e ilha que todos nós paulistas e paulistanos pagamos!
    Mas se vc não defendeu sua tese, a literatura ganhou e nós seus leitores que temos não uma doutora, mas uma escritora sensível, criativa e adorável!
    Parabéns por sua decisão!
    Bjs
    Maurício

  5. Você sempre maravilhosa!
    =*

  6. Ivana,

    Ah! Como eu precisava ler tudo isso que nos contou…e vpcê já sabe por quê…

    Você é demais!!!

    Bela vida! Ótimas escolhas! Ainda bem que preferiu a literatura…seus leitores agradecem muito e emocionados!

    Beijo grande,

    Cintia

  7. Que delícia de crônica! Que delícia de conto! Beijo.

  8. Ivana, eu não sabia dessa sua histórica acadêmica. Que horror! O mundo queimando lá fora e os professorzinhos vomitando suas mediocridades.Tipo asco total mesmo, caramba!

  9. O melhor de tudo é que depois de tantas tragédias pessoais… os últimos 10 anos tem sido os melhores da sua vida!!!

    Isso é que vale!

    Vale tudo!!!

    Tudo de bom!
    🙂

  10. sua maravilhosa! =)

  11. É bom te ler sempre. E é bom te ler no meu mais último 11 de setembro, hunffff!! Love you Doidivana querida!!!!
    Beijos, sempre.
    Ligia Pin

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