Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

CORRA, MURAKAMI, CORRA

6 comentários

Haruki Murakami é um romancista japonês que eu adoro, sobre o qual já falei aqui depois de ler alguns de seus romances: Antes do anoitecer, Minha querida Sputinik, Morwegian Wood, Kafka à beira-mar, etc. O cara nasceu em 49, é todo pop, escreve livros incríveis e é um super atleta de ponta. Corre maratonas há 25 anos e de uns tempos pra cá, como ele está ficando velho, começou a participar de triatlos. Veja você…

Em 2007 ele resolveu escrever um livro sobre esse seu lado B, quase A, que resultou tão interessante quanto sua ficção. “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, é o título (ed. Alfaguara). Acredite, vale muito a pena! Ele fala de corrida, de romances, literatura e das semelhanças e diferenças entre estes processos.

Alguns dos trechos que grifei:

“À medida que envelhece você aprende até mesmo a ser feliz com o que tem. Essa é uma das poucas vantagens de envelhecer”.

“Um dos privilégios concedidos àqueles que evitaram morrer jovens é o direito abençoado de ficarem velhos. A honra do declínio físico está esperando, e você precisa se acostumar com essa realidade”. (grifo meu)

E estes dois  últimos trechos são especificamente para escritores e sensacionais. É onde ele explica que, como lidamos cotidianamente com uma matéria pra lá de insalubre, é preciso que tratemos de manter nosso corpo saudável.

“Para lidar com algo insalubre, a pessoa tem de ser o mais saudável possível. Este é o meu lema. Em outras palavras, um espírito doente necessita de um corpo saudável. Isso pode soar paradoxal, mas é algo que senti muito claramente desde que me tornei escritor profissional. O saudávelo e o insalubre não são necessariamente os extremos opostos do espectro. Eles não se opõem um ao outro, mas, antes, complementanm um ao outro, e em alguns casos, até mesmo estão coligados. (…)

“Alguns escritores que na juventude compuseram obras maravilhosas, belíssimas, poderosas descobrem quando chega a certa idade que estão tomados por um repentino cansaço. O termo exaustão literária é muito apropriado aqui. Seus trabalhos posteriores talvez ainda sejam bons, e seu cansaço talvez comunique um significado inerente, mas é óbvio que a energia criativa desses escritores está em declínio. Isso resulta, acredito, do fato de sua energia física não ser capaz de superar a toxina com a qual estão lidando. A vitalidade física que até o momento foi capaz de superar naturalmente a toxina ultrapassou o seu pico, e sua eficácia no sistema imune deles está enfraquecendo gradualmente. Quando isso acontece, é difícil para um escritor permanecer intuitivamente criativo. O equilíbrio entre poder de imaginação e as capacidades físicas que o sustentam se desfez. O escritor passa a empregar técnicas e métodos que cultivou ao longo do tempo, usando uma espécie de calor residual para moldar algo no que parece ser uma obra literária – um método controlado que não pode ser uma jornada muito agradável. Alguns escritores acabam com a própria vida nesse ponto, enquanto outros simplesmente desistem de escrever e tomam outro caminho”

E agora, corra, Ivaninha, corra.

comentários do Ronaldo Bressane sobre Dom Murakami aqui e aqui

6 thoughts on “CORRA, MURAKAMI, CORRA

  1. Obrigado, Ivana.
    Feliz de estar dividindo esta edição do Jabuti também com a Andrea, e seu lindo romance.

    Grande beijo!

  2. Ei, Ivana. Adorei ver que você também pirou no Murakami. Eu comecei e me peguei pensando: “eu lendo um livro sobre corridas?”. Sim, um livro sobre corridas, sobre as corridas da vida também. Esse Haruki tem um fogo, menina. Eu queria ser amigo dele.
    Ainda não acabei Antes do Anoitecer, tô reservando pra conviver mais um pouco com aquelas personagens. Beijo. y bolotas.

  3. Aahahahahahahahha A D O R E I ler isto Ivana! Jamais poderia supor que tal escritor existisse. E que coisas incríveis ele diz!
    E quem já participou de corridas e triatlos, conviveu e até treinou atletas (sou graduada em Educação Física, assim como sua amiga escritora L. Fagundes, olha que chic!), sabe quão rica é a reflexão do japa que você nos traz ao conhecimento.
    Em 99% das vezes que passo por aqui, encontro o inusitado, seja em forma de texto de sua lavra ou um comentário/reportagem etc que dão uma boa e gostosa temperada no dia. Bj da Fatima/ Laguna(SC)

  4. Este deve ser um livro sensacional, Ivana. Daqueles que estão na minha lista há tempos e fico protelando, infelizmente.

    E, ademais, passei por aqui pra dividir contigo minha alegria. Aquele teu post sobre meu livro foi o início de uma trajetória de felicidades, a maior delas agora, que sou finalista no Jabuti!

    Grande beijo e tudo de bom, Ivana!

    Alessandro.

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