Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

LACINHO COR-DE-ROSA

9 comentários

A cidade onde nasci era do meu tamanho. Vivi lá até completar 8 anos, quando vim com meus pais para São Paulo.
Na década de 60, quando o Brasil começava a se industrializar, a coisa ficou feia para quem estava longe dos grandes centros. O melhor a fazer era vender a fazenda, o gado, o café e vir buscar dinheiro na capital.
Como esquecer o susto ao entrar na avenida Rebouças pela primeira vez! Duas avenidas coladas uma na outra, com um jardim no meio. Eu nunca tinha visto rua tão larga nem tão comprida.
– Pra onde vamos? – perguntou o motorista do taxi.
– Para a Francisco Leitão.
O homem começou a rir.
– Ah… a Chico Porquinho.
Eu demorei a entender a piada.
Os carros de praça de Araçatuba não tinham aquela maquininha. “Ca-pe-li-nha”, pronunciei com minha balbuciante alfabetização.
A casa que meu pai alugou tinha jardim na frente, garagem para o Dauphine zerinho, arco de gesso decorado separando a sala de visita da sala de jantar e um imenso corredor onde se enfileiravam a cozinha, o banheiro, o quarto dos meus pais e o meu, nessa exata ordem. No fundo, um quintal de terra.
– Aqui dá pra plantar muita coisa – ele disse já com saudade do que ficou pra trás.
Os móveis que eu conhecia desde sempre pareciam diferentes nesta cidade tão longe, tão grande.
Duas novidades foram logo compradas para espanto dos parentes que vinham do interior: uma televisão Admiral e uma máquina de lavar roupa. Eles assistiam tanto uma quanto a outra com o mesmo interesse.
– O Nonô está muito bem de vida – voltavam comentando.
A Cely Campello apresentava um programa que eu não perdia: Crush in hi-fi. Por causa dela, ganhei uma vitrola estereofônica Telefunken com portinha que fechava e toca-discos que vinha pra fora (como é difícil explicar certas coisas…).
Um sapatinho eu vou
com laço cor-de-rosa enfeitar.
A fábrica do meu pai era na Vital Brasil, do lado de lá da ponte do rio Pinheiros, praticamente um matagal.
– Neste bairro vai ser construída a Cidade Universitária – comentava-se na época.
Eu ainda chegaria lá. Por ora, estudava no colégio das freiras, na Cônego Eugênio Leite. Não senti muita diferença, freira é freira em qualquer lugar.
Aos domingos, o padre da Igreja do Calvário assinava a carteirinha que eu levava para ele na sacristia, provando que fui à missa. Só entrava na aula quem estivesse com a carteira assinada.
A Theodoro Sampaio era a rua por onde passava o bonde que nos levava, eu e minha mãe, para tomar chá no Mappin. A maior loja da cidade tinha um salão no segundo andar onde mulheres de luva e chapéu tomavam chá nas tardes de garoa.
Na esquina da Francisco Leitão com a Theodoro, uma agência funerária. Naquela época a morte não era municipalizada. Cada bairro tinha a sua funerária. Eu virava o rosto para não olhar a vitrine de caixões de muitas cores e tamanhos.
A Cônego Eugênio Leite era um corredor de floriculturas até o cemitério São Paulo. Na Cardeal Arcoverde, as marmorarias onde encomendar o túmulo.
Para visitar uma amiga que morava na Mourato Coelho, eu descia uma escadinha que ia da Henrique Shaumann à rua Lisboa. Descia correndo, morta de medo do tarado que vivia escondido ali.
A Tica Manca era a louca mais conhecida do bairro. Os meninos diziam que ela era muito rica e tinha uma casa imensa na Alves Guimarães. As meninas, bobonas, acreditavam.
A feira era na porta da minha casa. Mas nós tínhamos sorte, na frente do nosso portão era a barraca de alho e cebola. Coitada da Beth que morava lá embaixo, perto da Pinheiros, em frente à barraca de peixe.
No Cine Jardim assisti Ben-Hur, El Cid, O vendedor de lingüiça, Marcelino pão e vinho. Os filmes da Sissi e Os dez mandamentos, só passaram na cidade.
Aos domingos, meu pai me levava ao Gato que ri, no largo do Arouche, comer lasanha verde e salada de escarola. À noite, íamos ao auditório do canal 9 na Nestor Pestana assistir ao Brasil 60, programa apresentado pela Bibi Ferreira.
Depois, o melhor da festa: jantar no Gigetto e correr de mesa em mesa atrás do autógrafo dos artistas que também iam pra lá. Eu tinha um caderninho reservado para este fim. Cacilda Becker, Maysa, Agostinho dos Santos, Moacyr Franco, Luís Vieira.
Difícil era contar tudo isso para as primas que moravam do interior.
O prefeito era o Prestes Maia, um velhinho bem velhinho que morou até o fim do mandato (quiçá da vida) numa casa muito simples na avenida Angélica. Sempre que passávamos em frente, meu pai apontava a casa e dizia:
– Isso é um homem honesto.
Na rua Augusta existia a única lanchonete onde se vendia hot-dog na cidade, novidade recém-chegada ao Brasil. Um pão nunca visto, com uma salsicha no meio. Sobre ela, um desenho sinuoso de uma pasta amarela meio ardidinha, mas deliciosa, chamada mostarda. Ao redor, batata frita. Tudo dentro de uma caixinha de papelão.
O hambúrguer veio bem depois. Com ele, o catchup.
Naquela época era assim: hot-dog só se comia com mostarda, hambúrguer só com catchup. Depois é que virou essa bagunça.

 

(conto foi publicado no livro InSPiração, org. por Rodrigo de Faria e Silva, por ocasião dos 450 anos de São Paulo)

 

9 thoughts on “LACINHO COR-DE-ROSA

  1. Ótimas palavras. Que memória maravilhosa você tem. Beijos!

  2. Delícia de ler! Tudo isso eu vivi também! Vou copiar e levar para ler pra minha mãe que está em uma casa de repouso. Ela vai amar! bjs

  3. Tem interesse em fazer parceria com blogs literários?

  4. Maravilha…amo ouvir histórias da minha cidade….aliás sou grata pelo meu pai mineiro e minha mãe gaúcha permitirem que eu nascesse aqui!!!

    Abraços!!🙂

  5. Muito bonito, dona Ivana!

  6. Vc faz a saudade ficar mais bonita e mais saudosa, obrigada!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s