Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

MULHERES SUBTERRÂNEAS

19 comentários

(depois desse recadinho que a Bebel escreveu no facebook: “impossível não lembrar do seu caso com a mandioquinha… ando amando muito caqui, estou ficando velha???? ♥”, resolvi republicar a crônica com a história da mandioquinha)

Não é engraçada essa história de que, à medida que o tempo passa, nós vamos ficando cada vez mais parecidas com nossas mães?
Não sei se com os homens acontece o mesmo, se eles também vão ficando parecidos com o pai, mas nas mulheres este fenômeno é impressionante.
Com nossos filhos repetimos, em maior ou menor grau, a mãe que tivemos. Parece que o modelo se perpetua por osmose. Quando percebemos estamos sendo aquela mãe que abominávamos na adolescência.
Nós jurávamos que faríamos tudo diferente, qual o que, não dá pra fazer muito melhor do que elas fizeram.
Claro que o modelo sofre modificações e aperfeiçoamentos aqui e ali, mas o padrão é o mesmo.
Quantas vezes eu não me vi cobrando coisas da Bebel, dando bronca, implicando por bobagens exatamente como minha mãe fazia. Confesso que não fico muito encanada com isso, pois sei que ela se safa tão bem quanto eu me safava. Filho é um bicho muito esperto que vêm com manual de sobrevivência na ponta da língua. Mesmo assim não deixa de ser frustrante saber que minha filha mente pra mim como eu mentia pra minha mãe. Mesmo quando não é preciso.
Até fisicamente vamos nos assemelhando às mulheres que nos antecederam. Cada vez mais é o rosto da minha mãe, das minhas avós, das minhas tias que vejo refletido no espelho.
É como se dentro de nós houvesse camadas de mulheres subterrâneas que vão descamando com o passar do tempo. O andar da tia Nice, a fina ironia da tia Pequena, a tossinha chata da vó Iracema, a azia da vó Odila, o fervor religioso da Dirce vão se tornando visíveis pouco a pouco.
Talvez venha daí a esquisitice do rosto das mulheres que exageram na plástica ou no botox. A gente olha e não enxerga história alguma por trás. Elas parecem filhas de ninguém. Mulheres sintéticas que brotaram de algum repolho.
Quando eu me vejo tomando sopa de mandioquinha no jantar (religiosamente às 7 da noite) me dou conta que envelheci. Não havia nada que eu odiasse mais do que sopa de mandioquinha. E o pior (ou melhor) é que ainda escuto a voz da minha avó me dizendo: eu não falei que era uma delícia?

19 thoughts on “MULHERES SUBTERRÂNEAS

  1. Adoro essa crônica , ela mostra a pura realidade da vida!

  2. Maravilhoso!!!Quem não passou por isso vai passar…

  3. Estou a cada dia mais parecida com a minha mãe e estou adorando, pois ela é linda por dentro e por fora ! Pena que não herdei o tamanho dos seios…….rsrsrsrsrsrs

  4. Oi! Lembra aquele conto “A terceira margem do Rio” do Guimarães Rosa? Acho que é sobre como assumimos o papel dos nossos pais quando eles se vão e sobre nossa semelhança profunda com eles. É de chorar de bonito.
    Obrigada por seus textos!

  5. Isso é tão estranho que já me vi dando uma de minha mãe com o meu sobrinho, rsrsrs Acho que sei lá, tá no DNA da gente e não dá mesmo para escapar.

  6. sinceramente???? a primeira vez que cruzei um espelho e ele me devolveu aquele olhar tão conhecido, corri fazer uma plástica…. tudo, menos ficar com a fuça de minha mãe!!!! hoje, passados já quase dez anos, não só a fuça se parece cada vez mais, como muuuuuuuitas outras coisinhas que eu “odiava” tanto, e que já não me parecem tão horríveis!!! melhor mesmo é ver minha filha enveredando o mesmo caminho, com mais tranquilidade e sabedoria….

  7. MINHA MÃE MORREU FAZEM 23 ANOS .É DIFICIL FALAR DA APARENCIA ,MAS DOS HABITOS SEM DUVIDA .ADORO COMER PÃO COM VERDURA REFOGADA DO ALMOÇO E EU ABOMINAVA.ME VEJO FAZENDO OBSERVAÇÕES OU MESMO DITADOS QUE ELA USAVA .VAI AQUI UM POUCO DE SAUDOSISMO ,O TEXTO É BEM PERTINENTE.

  8. Adorei!!! É a pura verdade….nunca me achei parecida com a minha mãe, mas, vez ou outra me pergunto o que ela está fazendo no meu espelho!!! Isso sem contar as inúmeras vezes que me peguei repetindo para os meus filhos as mesmas frases (e com a mesma entonação) que minha mãe falava para mim e, que tenho certeza, repetirão para seus filhos, e assim vamos perpetuando a nossa história.
    Lindo texto! Bjs

  9. Ivana, lindo texto, parabéns! Fiquei a pensar que gostaria de ter herdado a doçura da tia Nice, o espírito forte e a praticidade da tia Pequena, a fé da Dirce. No entanto, fico com a vó Iracema, sou louca por mandioquinha e abobrinha, abominados na infância e adolescência.
    Beijão

  10. Ah … que delicia de texto … Beijocas da tia coruja …

  11. Adorei, vejo igual, sem querer, querendo, chegamos na terceira idade, vc foi boazinha com as ironias da pequena.
    Bjs…

  12. Lindo, lindo, lindo!

  13. Ivana,
    Eu perdi minha mãe semana passada, seu post tocou em mim…como ela foi uma mãe ma-ra-vi-lho-sa, não tenho medo de ficar parecida.bj procê .

  14. … e viva as mães….. Ivana, ontem vi no Canal Universitário, uma

    entrevista sua, só que já estava no fim, vc sabe dizer se esse programa

    tem um horário definido, pq eu queria ver inteiro. bjks
    PS Nossa. vc estava ótima. a vontade naquele cadeirão que mais parecia um divã, gostei so cabelo, da calça Lee, do tenis, enfim very cool.

    • Já foi pro ar? Eu não sabia. Queria tanto ver. O problema é que esse programa não tem horário certo. Vai passando. A sorte é que reprisa pra caramba. Uma hora dá certo e a gente vê o programa inteiro. Beijos

  15. Ivana, faz tempo que visito seu blog diariamente. Adoro ver as fotos de seus encontros com amigos, suas comidas com cara otima e sua viagem para BA foi um show!
    Mas esse post… ele mexeu comigo! Tenho 31 anos, nao tenho filhos ainda, mas vejo exatamente o mesmo que vc, dia a dia vou me parecendo mais com as mulheres da minha vida. Isso me leva a pensar o que sera que outras mulheres levarao de mim? Espero ter coisas muito boas para dar a elas.
    Beijo.
    (desculpe a falta de acentuaçao, existe um problema no meu computador que ainda nao descobri a solucao!)

  16. Ivana, esse foi o post mais bonito que li nesse blog desde que leio seus textos.
    Preste bem atenção: há um romance dentro dele.

    Bjs!

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