Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

04 DE AGOSTO DE 2004

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(Este conto não foi baseado em notícia de jornal mas num fato real que aconteceu neste dia na minha rua. O conto foi publicado na antologia – História de imigrantes. Org. Adilson Miguel. Ed. Scipione, 2008 )

DONA SARA

 O que terá pensado o marido ao chegar em casa e ver a mulher pendurada no meio da sala? Será que se sentiu culpado? “Fui eu”.
A japonesa morava num sobrado amarelo a um quarteirão da minha casa e era mais forte do que costumam ser as japonesas.
Todo dia eu a via trotando de agasalho pelas ruas do bairro com seu akita branco na coleira. Parecia tão disposta a japonesa. Tão distinta.
Será que o cachorro viu quando ela comprou a corda? O que terá pensado o cachorro japonês? Será que achou que era pra ele? Será que se assustou quando ela amarrou a corda na escada? Será que latiu quando ela pulou? Será que ela estava de moleton?
O casal de japoneses parecia tão feliz. Era tão lindo o jardim que cultivavam, os periquitos que alimentavam sem nunca prender. De madrugada, acordavam a vizinhança com a gritaria e depois sumiam até o entardecer, quando voltavam de novo pra dentro da paineira cor-de-rosa; o cachorro discreto e silencioso; a chácara de onde traziam as frutas e verduras da semana. Tanta disposição tinha o casal japonês.
Aos domingos, os filhos e noras vinham almoçar com os pais; uma das noras, grávida. A família parecia uma ikebana dando sentido às nossas vidas vazias e desorganizadas.
Ontem à noite, quando vi a confusão, fui até lá. Tinha até carro de polícia. Pensei em assalto, seqüestro, mas a tragédia era de outra natureza.
– A dona Sara se matou.
– Sara? Que Sara?
– A japonesa que morava ali.
– Ela se chamava Sara?
Dentro da casa, os policiais abriam gavetas e arrastavam móveis à procura de explicações. O akita uivava desesperado preso em algum lugar. O marido foi levado às pressas para o hospital. Não agüentou ver a mulher pendurada no meio da sala. Ela o mandara comprar flores. Os arranjos eram todos de sua autoria. Os filhos, atordoados, andavam de um lado pro outro sem cabeça para as providências que os policiais exigiam. E o engraçado é que, no meio disso tudo, o que mais me assustou foi a esquisitice do nome. Vê se Sara é nome de japonês.

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