Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

05 DE AGOSTO DE 2004

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a notícia:

Morre na França Henri Cartier-Bresson

o conto:

GARRAFAS

Sempre que ouço barulho de garrafas batendo dentro da sacola, eu me lembro dos meus tempos de menino. Moleque descalço levando e trazendo cerveja pro meu pai. No fim do mês, a conta com bebida era maior que todo o resto. Meu pai estava sempre bêbado, brigando com seus fantasmas, comigo, com a minha mãe. Se eu ia brincar na rua, ele gritava da janela: “Tutu, mais duas”. Parando toda hora pra buscar cerveja, não havia quem me quisesse no time. Minha mãe não agüentou e foi embora. Quando acordei, tinha um bilhete na mesa: “Filho, me perdoa. Um dia eu volto pra te buscar”. Sem poder trabalhar, eu e meu pai vivíamos da boa vontade dos vizinhos, da esmola do padre e de um dinheirinho que eu ia buscar pra ele todo mês no INSS. No fim da vida, eu tinha que dar cerveja numa colherinha pra ele parar de tremer. Depois que ele morreu, fui atrás da minha mãe. A cidade onde ela morava não era longe. A dona do puteiro me deu a notícia: “A Alzira tá no sanatório. Tuberculose. Sabe como é, muita bebida, cigarro, friagem… ”. Voltei pra casa sem nem perguntar onde era o tal sanatório. Na rodoviária pedi um guaraná e chorei de saudade do meu pai. No caminho, tive que parar três vezes de tanto que me doía a barriga.

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