Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

13 DE AGOSTO DE 2004

1 Comentário

a notícia:

Nos EUA, governador diz ser gay e renuncia

o conto:

FIM DE MANDATO

Não havia quem duvidasse da integridade de Lauro Matoso. Filho de família simples, ele era incapaz de colocar na carteira um tostão que não fosse seu. No pouco tempo que ficou no cargo, reformou escolas, deu remédio de graça, construiu moradias populares. Um dia convocou a população pelo rádio: às quinze horas queria todo mundo na Praça Central. Muitas hipóteses foram levantadas. Anunciar o superavit das finanças do município? Comunicar a inauguração de mais uma escola, de um posto de saúde? Mas ele sempre fez isso sem alarde.
Às três em ponto, Lauro subiu ao palanque. Lá em cima, o padre, o delegado, o vice-prefeito e demais autoridades. Ele tomou a palavra e pediu silêncio.
– Quero comunicar aos presentes que estou renunciando ao meu mandato e entregando a prefeitura ao digníssimo doutor Luiz Serafim, vice-prefeito desta cidade, aqui presente. Foi como se um meteorito tivesse caído no meio da praça. Lauro enxugou o suor da testa e continuou:
– Razões morais me impedem de continuar no cargo. Fui tomado por uma paixão avassaladora que me faz abandonar não só a prefeitura como minha esposa e meus filhos. Largo tudo para ser fiel ao meu coração.
Houve um princípio de tumulto. Ele bateu no microfone e elevou a voz.
– A pessoa por quem estou apaixonado é um homem como eu. Sim, caríssimos, eu estou apaixonado por um homem com quem pretendo viver o  resto dos meus dias. Aos que puderem, peço que me perdoem. Aos que não puderem, vão tomar no meio do seu cu. Dito isso, desceu a escada e atravessou a praça sob um silêncio sepulcral. Lá de longe ouviu-se um grito: viado! Mas ninguém acompanhou. De cabeça erguida, ele andou até o carro que o esperava. O motorista lhe abriu a porta traseira mas ele preferiu sentar-se no banco da frente. Com lágrimas nos olhos disse ao rapaz uniformizado:
– Você não queria uma prova?

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

One thought on “13 DE AGOSTO DE 2004

  1. Ahhhhhhahhhaaashuahaaahhaa! Ivana faz tempo não venho por aqui. De repente me deu uma vontade e vim. KKKKKKKK. ADOREI ESTE CONTO! Não sei bem porque gostei mas acho que foi pelo efeito catártico da frase que vem depois desta:
    “Aos que puderem, peço que me perdoem.” Kkkkkkk . Ninguém pode saber que eu uma velhinha de 60 anos, professora, esposa e mãe achei engraçadíssimo o prefeito mandando o povo que “não puderem (…)” tomar &@#%! As vezes me surpreendo. Como posso me emocionar com um poema de Adélia Prado falando de Deus e morrer de rir com a desbocada, mas não menos genial Ivana Arruda . Acho que é porque ARTE é tudo uma coisa só: seja de Ivana ou de Adélia. Este país vale a pena por Adélias e Ivanas!
    Abraço daqui de Laguna/SC . Fatima Barreto Michels. P.S.: Li só este hoje porque preciso terminar um trabalho mas voltarei pra ver as matérias anteriores.

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