Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

17 DE AGOSTO DE 2004

2 comentários

a notícia:

Churrasco é astúcia contra greve de fome

o conto:

PICANHA NA BRASA

Ernesto entrou na sala do doutor Lourenço e contou a novidade:
– O pessoal tá falando em greve de fome.
– Chi… Isso é uma encheção. Daqui a pouco tá cheio de jornalista pra ver os caras brincando de faquir.
– Pra mim, esse negócio de greve de fome é coisa de maluco – disse Ernesto de olho na quentinha.
A bóia estava que era uma beleza: arroz, feijão, batata assada e carne de panela bem molhadinha. Quando o delegado saiu para o almoço, ele tirou o vidrinho de pimenta da gaveta e molhou a comida inteira. Devorou tudo em enormes garfadas e soltou um arroto de estremecer. Pra arrematar, um gole do café morno que dormia na garrafa desde as 8 da manhã.
Doutor Lourenço foi almoçar com Rubão da 16ª, na Bezerro de ouro, uma churrascaria muito fina, 50 paus por cabeça. Das saladas às sobremesas, eles não deixaram passar nada batido.
– Garanto que a gente dá prejuízo pra essa churrascaria.
– Ah… se dá – disse o Rubão pedindo cerveja.
Costelas, picanha com alho, sem alho, peito de peru enrolado no bacon, coraçãozinho, maminha, miolo de alcatra, filet mignon, cordeiro, cabrito, costeleta de porco, coxa de frango, mussarela na brasa, tudo com muito arroz, farofa, batata frita, mandioca frita, banana frita, cebola frita, vinagrete, maionese, azeitona verde, azeitona preta, salaminho.
– Essa comida é muito punk – disse Lourenço voltando pra mesa com o prato coberto por uma montanha de alface lisa, alface crespa, escarola, rúcula, tomate seco, pepino, rabanete, beterraba, brócolis. – Isso ajuda a desentupir as veias.
– Mais uma cerveja – pediram ao garçom.
Quando passou o carrinho de sobremesas, Rubão recusou. Lourenço pediu um pouco de cada:
– Me dá um pudinzinho de leite, um creme de papaia , uma torta holandesa. Põe também umas uvas pra combater o colesterol. Eu me cuido.
– E essa história da greve de fome no seu distrito?
– Sabe que eu acabo de ter uma idéia? – disse doutor Lourenço, ligando pra delegacia.
– Ernesto, sabe aquela churrasqueira que tá na garagem das viaturas?
– Sei sim senhor.
Coloca ela embaixo da cela 16 e taca fogo. Tem carvão aí, Ernesto?
– Tem sim senhor. Sobrou dois sacos do último churrasco.
– Então vai acendendo a churrasqueira que eu tô chegando com a carne. Você acha que eles vão agüentar, Ernesto?
Ernesto sentou para saborear a idéia.
– Não vão, não senhor. Não tem quem resista ao cheiro de uma picanha na brasa.
– E de maminha, Ernesto, tem que resista?
– Tem não senhor.
– E costelinha de porco?
– O senhor é demais, doutor Lourenço.

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