Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

20 DE AGOSTO DE 2004

2 comentários

a notícia:

Moradores de rua sofrem ataque em série

o conto:

PLAYCENTER

L. passou na casa de G. e os dois foram ao encontro de M., que estava na casa de C. Quatro moleques sem carta no carro do pai.
– Por que tem de ser no centro? – perguntou G.
– Porque lá tem mais mendigo.
– Vamo lá, vamo lá – M. gritava – acelera essa porra.
Quatro meninos trincando de pau duro como se fossem descabaçar uma garotinha de sete anos. Mas isso eles já tinham feito o mês passado. As emoções não podem se repetir. Faltava matar mendigo. Era essa a moda de inverno na cidade.
– Vamo lá, vamo lá.
L. desceu a Consolação sem parar em nenhum cruzamento.
– Aqui tem motorista – ele disse parando a um palmo de um caminhão.
Na Praça da Sé, eles viram o primeiro:
– Será que é gente ou é lixo?
L. parou o carro, deixou os faróis acesos e abriu o porta-malas. Cada um pegou uma barra de ferro.
M. deu um chute e o amontoado de lixo gemeu. Era gente.
– Na cabeça, cara, na cabeça.
Quando subiram no carro e saíram cantando pneu, a circunferência de sangue ao redor da cabeça já media um metro e meio. G. se babava de prazer.
– Que tesão, cara. Acho que vou bater uma punheta.
– Não quero porra de marmanjo aqui dentro.
– Ali tem mais um – disse M.
– São dois, cara.
– Vamo lá, vamo lá.
Os quatro saíram de cano na mão. Bateram primeiro num, depois no outro e foram em frente.
– Quero mais, quero mais – dizia G. adorando a brincadeira.
Na praça João Mendes, três. Na rua da Glória, dois.
– Uhuu – desciam gritando.
Na esquina da Tabatingüera L. avisou:
– Só mais um, tá legal?
– Mas vê se capricha.
Eram só dois. Depois, conforme o combinado, L. subiu a Consolação em direção aos Jardins. Os meninos estavam bem mais calmos.

2 thoughts on “20 DE AGOSTO DE 2004

  1. Ivana, aprecio seus minicontos. Especialmente este, em que você se motra hábil na composição de diálogos. Parecem extraídos do real. Neiva Rodrigues de Almeida

  2. A violência é uma parte bem natural de qualquer ser humano, mas assim gratuita assusta demais nosso senso moral já limpinho por décadas de direitos garantidos. É o nosso paradoxo a humanização das coisas e a coisificação dos homens: matança de mendigos o novo passatempo da classe média. E os higienistas sociais vão ao delírio.

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