Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

23 DE AGOSTO DE 2004

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a notícia:

Ladrões levam o quadro “O Grito” à luz do dia

o conto:

O GRITO

Edvard andava de um lado pro outro, pisando nos cacos de vidro e restos de comida pelo chão. Desesperado, espalhava grossas camadas de tinta tentando abafar o grito que só ele ouvia. Sobre a mesa, montanha de desenhos não terminados. Tarde da noite, desceu a escada e saiu. A mão direita segurava a garrafa de uísque enquanto a esquerda brigava com seres imaginários. Sobre a ponte, um vulto de mulher. Seria Orlova? Ela também costumava sair pelas ruas de madrugada. Na infância, ele tampava os ouvidos para não ouvir os gritos da irmã. E estes homens que vêm atrás dela, quem são? Seriam os enfermeiros? Uma noite eles entraram na sua casa e levaram-na numa camisa de força. Talvez fosse a mãe, que morreu tuberculosa aos 50 anos. No leito de morte, faltava-lhe o ar para o grito. A boca em forma de ovo ainda o assombra nas noites de insônia. Andrea, a irmã mais nova, morreu muda e tuberculosa.
Pela manhã, os guardas levam Edvard para o abrigo público onde lhe dão banho e um prato de sopa. Depois ele volta para o estúdio e o inferno recomeça.

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