Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite


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POEMAS ANTIGUINHOS

APRENDIZADO

Na calada da noite
Eu choro e me desespero.
Sofrimento amadurece?
Acho que prefiro morrer verde.

 

ENGASGO

Há os que são nuvens
há os que são pedras
há os que são anuvem
cuma pedra (dentro)

CONSELHINHO

Bons amigos é que não são
estes dois estados d’alma
amor de um lado, amizade do outro
pra que não se perca a calma.

RAPIDINHO

No vôo das duas horas
embarcam velhas senhoras rumo a Miami Beach.
No vôo das cinco e meia
embarca uma sereia
para Atlantic City.
No vôo que estão chamando
eu embarco bem ligeiro
pois não consigo rimar o passageiro
que sobrou.


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O HOMEM E AS TRIPAS

O homem que desconhece as tripas
pergunta à barriga que ronca:
– O que há dentro de mim
que faz tanto barulho assim?

As tripas que desconhecem quem as segura
(e são surdas)
continuam a faina diária
sem se preocupar com perguntas,
pois acham a barriga do homem
casa muito acolhedora
para a procriação de vermes e bactérias.


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DOIS POEMINHAS FAMILIARES

FLOR

Cidinha de Arruda Leite
mulher do Esmeraldo
irmã da Celina
(que nasceu para ser princesa)
é poesia por si só,
basta escrever assim, o nome dela –
Cidinha –
e a poesia está.

OITO DE DEZEMBRO

Santa Generosa,
igreja demolida
pra dar lugar a um viaduto.
Uma tia minha
que se casou nessa igreja
também teve o casamento destruído
Cecília, a tia demolida
deu lugar à Tereza/viaduto
que lhe sucedeu.
Se tivesse adivinhado
casava na igreja de santa Ifigênia
que está de pé até hoje.


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POEMETOS

ESTAMPIDO

Feixe de nervos à espera do tiro
Fim ao tremor elétrico dos nervos,
ao pavor histérico dos medos.

NAUFRÁGIO EM ROTERDÃ

Andar no prumo imaginário da razão.
Estar e já não estar.
Dançar sem mover um músculo.

NO TEU PEITO

Boto o ouvido no teu peito
e lá de dentro eu escuto
teu coração batendo forte
numa dança comedida.

PROMESSA

És meu, sou tua
ainda que optemos pela sorte
de não ter o que se quis.

És meu, sou tua
ainda que por medo
de morrer de amor
percamos a vez
de ser feliz.

TULE

Em dias de dor sublimada,
em dias de lembrança da dor
(arrebentação)
expludo em câmara lenta
e tento reescrever a vida.


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COLA

Lápis preto número dois
seguindo a trilha do desenho
que se esconde por baixo do papel de seda.

Gosto da ideia do destino
como algo assim:
previamente traçado.

Embora duvide um pouco.


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PRETÉRITO IMPERFEITO

bastasse
fizesse
quisesse
amasse

Os verbos do pretérito
imperfeito
são verbos doces e mansos
Colocam à distância o passado.
Não tão perto que ainda doa
nem tão longe que se esqueça.

***

Agradeço comovida as manifestações candentes deixadas neste blog pelas crônicas que tenho publicado. Quando retomei o assunto foi simplesmente como curiosidade histórica. Estou pasma de saber que elas ainda mobilizam muita gente e conservam seu vigor. Bom fim de semana! Semana que vem tem mais.