Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite


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FAQUIRISMO

No aquário de vidro
deitada numa cama de pregos
em jejum há quarenta dias,
seminua, com as costelas à mostra
exponho minha dor
em praça pública
com um sorriso branco
nos lábios descarnados
por pura vaidade,
já que eu não recebo pra isso.


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UM POEMA POR DIA

Há 79 dias eu aceitei o desafio que meu amigo Joca Reiners Terron propôs: fazer um poema por dia. E lá se vão 79 poemas publicados diariamente no facebook e no instagram na hashtag #fazerumpoemapordia.  Daqui pra frente, penso em publicá-los aqui também. Não só para reanimar o blog como por achar que essa é uma mídia mais segura para guardá-los (será?). Na dúvida, eis aqui o poema que fiz hoje. Se der certo, continuamos.

PUDIM

Sonhei que meus poemas eram pudins
de morango e chocolate.
Lisinhos, brilhantes, doces.
Tão lindos os poemas pudins!
Eu os exibia orgulhosa
e oferecia aos presentes.
Aceita? Tá servido?
Quer provar um pedacinho?


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POEMAS ANTIGUINHOS

APRENDIZADO

Na calada da noite
Eu choro e me desespero.
Sofrimento amadurece?
Acho que prefiro morrer verde.

 

ENGASGO

Há os que são nuvens
há os que são pedras
há os que são anuvem
cuma pedra (dentro)

CONSELHINHO

Bons amigos é que não são
estes dois estados d’alma
amor de um lado, amizade do outro
pra que não se perca a calma.

RAPIDINHO

No vôo das duas horas
embarcam velhas senhoras rumo a Miami Beach.
No vôo das cinco e meia
embarca uma sereia
para Atlantic City.
No vôo que estão chamando
eu embarco bem ligeiro
pois não consigo rimar o passageiro
que sobrou.


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O HOMEM E AS TRIPAS

O homem que desconhece as tripas
pergunta à barriga que ronca:
– O que há dentro de mim
que faz tanto barulho assim?

As tripas que desconhecem quem as segura
(e são surdas)
continuam a faina diária
sem se preocupar com perguntas,
pois acham a barriga do homem
casa muito acolhedora
para a procriação de vermes e bactérias.


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DOIS POEMINHAS FAMILIARES

FLOR

Cidinha de Arruda Leite
mulher do Esmeraldo
irmã da Celina
(que nasceu para ser princesa)
é poesia por si só,
basta escrever assim, o nome dela –
Cidinha –
e a poesia está.

OITO DE DEZEMBRO

Santa Generosa,
igreja demolida
pra dar lugar a um viaduto.
Uma tia minha
que se casou nessa igreja
também teve o casamento destruído
Cecília, a tia demolida
deu lugar à Tereza/viaduto
que lhe sucedeu.
Se tivesse adivinhado
casava na igreja de santa Ifigênia
que está de pé até hoje.