Quando você recebe um email desse do Reinaldo Morais, o grande Reinaldão, o nosso Rei, o que você faz? Conta pra todo mundo e vai pra rua beber. Que alegria! Obrigada, querido. Quero escrever muitos romances ainda só pra receber emails como esse. Um beijo enorme
Ivana Ivanóvna Ivanovich de Arruda Dostoiévski, mas que puta livro delicioso você escreveu, menina. Garrei a ler ontem, finalmente, em meio a milhares de leituras e tarefinhas que deixei dependuradas. Confesso que abri seu Hotel Novo Mundo com medo de não gostar. Sei lá, várias circunstânbcias me deixavam com um pé atrás. Por exemplo, você já tinha me contado a trama básica — puta que vira madame bem casada no Rio e, dez anos depois, traída e desiludida, foge de casa e volta pra São Paulo, pra morar numa pensão no coração do basfond paulistano –, e me deu preguyiça de conferir a fatura dessa idéia num romance. E teve a opinião da minha sogra cult, que achou o livro “muito humano”. Temi que isso significasse melodramático e chatonildo. Além disso, não fui muito com a cara da capa. Mas comecei a ler assim mesmo, e aí foi foda. Deixei tudo imediatamente de lado: uma pilha de livros que tenho de ler pra fazer orelhas e releases, meu romance mexicano empacado, um argumento de cinema prum produtor com prazo de entrega estourando, e até as peladas da internet que afagam minha libido nas horas besta da tarde. Li antes, durante e depois de ler. Li até no meio do trânsito pesado do Itaim, às 4 da tarde, com nego buzinando no meu rabo pra eu me tocar de que o carro da frente já estava longe.
Adorei tudo, Ivana. Entrei naquela pensão da Luz junto com a Renata e me lambuzei com seu/dela/seu humor fino, mas sem alarde, nada de gags nem piadelhas, tudo na medida dos personagens, da trama. Me senti como ela, alguém com a vida ao Deus-dará, saída do bem bom do lar rico pra sarjeta do risco, balangando atordoada na corda bamba da pobreza. E me deliciei com as clássicas refeições brasileiras do Novo Mundo, filé de frango com purê, rabadas sensacionais, bife de panela, torta de frango, tudo com o capricho e a habilidade que só uma Genésia poderia apresentar à mesa e uma Ivana às páginas de um livro.
Você tá escrevendo um bolão, cara, zero de barriga, um ritmo viviante, grandes sacadas narrativas (as possíveis ruminações do César passando pela cabeça da Renata), uma capacidade incrível de fisgar todo o attention span disponível do leitor, coisa de louco mesmo. As várias histórias individuais de todos os habitantes do seu microcosmo ficcional são ótimas e vão se fechando e se interpolando num circuito humano altamente crível, construído só com as peças essenciais, tudo muito palpável, deleitável, abraçável — e, sobretudo, lível. Coisa mais boa de ler, sô. Tudo muito econômico, rápido, engraçado, às vezes angustiante, mas sempre colorido, tudo cheio dos cheiros, sabores, tonalidades, texturas, como só mesmo a tal da vida-como-ela-é.
Porra, não sei mais o que dizer, Ivana. Um mirrado parabéns não daria conta do meu contentamento de ler algo tão bom. Curioso como a sua Renata me fez lembrar da Gabriela Leite, uma ex-puta que conta a vida (real) dela numa biografia chamada “Mãe, avó e puta”, também muito boa de ler até a metade mais ou menos. (Se quiser, te empresto.) O texto final não é da Gabriela, mas de algum redator que vai dando baixa nas memórias da mulher – que também foi expulsa de casa por um pai caxias e cruel. Enfim, nem sei por quê estou falando isso, o Novo Mundo pouco tem a ver com o livro da Gabriela (que é Leite como você, by the way), e é apenas uma biografia corajosa de ux-outa. Você fez literatura da mais alta qualidade com a sua ex-puta Renata, e o que talvez eu esteja atabalhoada e prosaicamente querendo dizer é que a sua personagem saiu do mundo real — ou nele acaba de entrar, sei lá –, tão bem está construída. (Outra coincidência: a Gabriela também é fã de rabada, como a Renata e eu também.)
Caralho, vou parar por aqui, mas queria te dizer ainda umas 3 mil coisas boas sobre o seu ótimo romance. Direi a beira-chope qualquer hora dessas
Uau! Ainda bem que a inveja não passa de um forma superior de admiração, como diz o Veríssimo filho. Senão eu já tava morto, seco, esturricado uma hora dessas.
beijão mui mui mui grande,
do seu fã mais aguerrido
Reinaldo